💬 Dermatologista critica 'Botox preventivo' aos 25 anos: 'médico tem que saber dizer não'
Em entrevista para série de HBO Max, dermatologista Brandão questiona banalização de procedimentos preventivos em pacientes jovens sem indicação clínica real.
💡 Reforça tensão entre profissionais mais estabelecidos e prática comercial de ofertar procedimentos sem necessidade real; debate sobre responsabilidade profissional vs. lucratividade em procedimentos preventivos.
📰 Trecho da matéria original (Abril.com.br (via NewsAPI)). Continue a leitura na fonte.
De inflamações severas a deformidades causadas por câncer de pele , os casos que mais marcaram a rotina da dermatologista e cirurgiã dermatológica Carol Brandão envolvem pacientes que tiveram a vida profundamente afetada pelas lesões. Um deles é um jovem que tinha um tumor grande na pele, motivo de chacota e olhares estranhos na escola. A cirurgia para a retirada da lesão devolveu a vontade de frequentar o ambiente escolar, e o menino voltou a ter qualidade de vida , assim como sua mãe, que acompanhava de perto o sofrimento do filho.
O caso está entre os que são apresentados na série ‘ A Rainha do Bisturi ‘, que estreou na quinta-feira, 10, na HBO Max, na qual a médica acompanha histórias complexas de pacientes com lesões de pele que impactam não apenas a saúde, mas também o bem-estar emocional .
Para Brandão, o cenário contrasta com uma tendência recente observada nas redes sociais: jovens buscando, cada vez mais cedo, procedimentos estéticos controversos, como o famoso “ botox preventivo “.
A médica diz que há uma fronteira entre tratar uma doença e atender a um desejo estético . Os pacientes da série convivem, em sua maioria, com condições graves que exigem tratamento e, em alguns casos, procedimentos cirúrgicos de alta complexidade. É o caso também de uma mulher de 43 anos com câncer localizado na ponta do nariz, região que exige grande precisão durante a cirurgia.
A câmera acompanha os atendimentos e os procedimentos indicados pela equipe, além da recuperação de cada paciente, mostrando como essas condições também afetam a rotina e a autoestima de cada um. Todos os casos são reais e foram selecionados a partir de um anúncio feito pela médica em um grupo de colegas da área, para os quais ela havia dado aulas de dermatologia em uma plataforma de ensino.
Junto à produção da série, que descobriu Brandão por meio de suas redes sociais, onde ela tem mais de 30 mil seguidores, foram encontradas pessoas que buscavam tratamento para suas condições dermatológicas.
Um cenário bem diferente do observado entre jovens de 25 anos ou menos que buscam aplicações de toxina botulínica ou lifting facial . Para Brandão, a precocidade dessa busca chega a ser uma “ distopia ”.
“Como médica, tenho muitas ressalvas e dificuldade de enxergar isso e não me posicionar contra”, diz ela. “Claro que a gente quer envelhecer bem e tem várias formas de você fazer isso, mas existe um limite muito tênue que passa pela mão do injetor, do cirurgião, da pessoa que vai cuidar. E, às vezes, é preciso olhar para essa pessoa de uma forma muito mais profunda e saber dizer ‘não’ e botar limites”, afirma.
A dermatologista reconhece que procedimentos estéticos também podem ter efeitos que vão muito além da aparência . “Às vezes, diminuir a mama de uma mulher que tem uma mama volumosa e que não usa uma roupa por causa disso é algo que vai melhorar a vida dela não só na estética”, comenta.
Para Brandão, porém, cada demanda levada ao consultório carrega camadas nem sempre visíveis, inclusive emocionais, que devem ser levadas em consideração para que médico e paciente decidam, juntos, a melhor opção de tratamento.
A dermatologista defende a escuta como ferramenta fundamental para exercer a medicina, profissão que ela herdou do pai e do avô obstetras. “Tem estudos que falam que o médico interrompe um paciente depois de ele ter falado 11 segundos. É impossível ouvir uma pessoa que tem algum problema em 11 segundos”, diz.
Além da série, a parceria com a HBO Max terá uma extensão no YouTube, com vídeos curtos sobre mitos e dúvidas relacionadas à dermatologia, entre eles o “botox preventivo”. Os episódios devem ser publicados aos sábados. Veja abaixo a íntegra da entrevista com Carol Brandão , de ‘A Rainha do Bisturi’.
VEJA: Na série, você trata casos complexos que vão desde inflamações severas a deformidades causadas por câncer de pele. Esses casos são todos reais? Como esses pacientes foram encontrados?
Carol Brandão: Sim, os casos são todos reais. Antes de ser chamada para apresentar a série, eu tive uma plataforma de ensino de coisas muito básicas da dermatologia, como dar ponto, fazer curativo…Então, por também ser professora de dermatologia, tenho uma rede de contatos grande na comunidade médica. E aí, no dia 5 de agosto de 2025, a gente soltou essa informação de que seria gravada a série e eu divulguei junto à essa comunidade, para que a gente pudesse saber casos de outros colegas, de pessoas que tinham situações como essas que você descreveu e que queriam ser tratadas.
VEJA: Como foi a experiência de participar da série? Qual foi o caso que mais te marcou?
Carol Brandão: Foi minha primeira vez gravando uma série. Eu vim dessa plataforma de ensino que eu tive durante três anos, tempo em que passei gravando e falando para outros médicos, e eu sempre percebia muito que, na gravação dos meus cursos, era tudo na minha mão. Então, a série abriu esse cenário: começaram a aparecer eu e as pessoas, então foi desafiador, claro.
O caso que foi mais forte para mim, porque eu sou mãe de duas crianças, foi a de um rapaz, que é um adulto jovem que tinha uma lesão, um tumor benigno, mas que causava um prejuízo estético muito grande para ir para a escola, as pessoas ficavam apontando…A gente teve que fazer toda uma preparação, porque ele já tinha sido operado outras vezes, e ele estava com medo da agulha e da anestesia.
Então, teve toda uma relação ali que a gente teve que construir para que ele, na câmera, ficasse calmo com a anestesia e conseguisse resolver toda a situação. Tive que fazer uma preparação grande, porque era um tumor que podia sangrar muito, tive que estudar bastante o caso para saber como a gente ia resolver aquilo e, no final, deu tudo certo. É muito legal você poder ser essa pessoa que ajuda outras pessoas a viverem melhor. Digo ‘pessoas’, no plural, porque não foi só ele, a mãe dele também ficou muito realizada com tudo, por exemplo.
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